19/07/2017

A Pedra de Roseta

Pedra de Roseta exibindo as três inscrições em hieróglifos, demótico e grego antigo essenciais para a história da matemática egípcia

No dia 19 de julho de 1799, as tropas napoleônicas encontravam no Egito a Pedra de Roseta, um achado arqueológico que revolucionaria a egiptologia e tornaria possível, décadas mais tarde, a compreensão profunda de toda a ciência e da matemática egípcia.

A Pedra de Roseta é um fragmento de uma estela de granodiorito do Egito Antigo, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos. Sua inscrição registra um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis, em nome do rei Ptolomeu V. O conteúdo está registrado em três sistemas de escrita diferentes para o mesmo texto: o registro superior em hieróglifos (utilizados em decretos sacerdotais), o trecho central em demótico (a escrita cotidiana e administrativa do Egito tardio) e o inferior em grego antigo (a língua da corte ptolomaica).

Exibida originalmente dentro de um templo, a estela provavelmente foi removida durante os períodos cristão ou medieval, terminando como material de alvenaria na construção de um forte na cidade de Roseta (Rashid), no delta do Nilo. Foi ali que, em 1799, o engenheiro militar Pierre-François Bouchard, sob o comando de Napoleão Bonaparte, percebeu o valor daquela rocha escura. Sendo o primeiro texto bilíngue recuperado na história moderna, o artefato despertou imediato interesse científico. Após a derrota francesa no Egito em 1801, a posse da pedra foi transferida para o Reino Unido por meio da Capitulação de Alexandria. Transportada para Londres, ela permanece em exibição pública no Museu Britânico desde 1802, figurando como a peça mais visitada de seu acervo.

Embora uma tradução completa do texto grego tenha surgido já em 1803, o mistério dos hieróglifos exigiu mais duas décadas de esforços intelectuais. O anúncio definitivo da decifração ocorreu apenas em 1822, pelo polímata francês Jean-François Champollion. O avanço baseou-se em marcos fundamentais: a percepção de que os três blocos continham o mesmo decreto; a descoberta de que o demótico isolava caracteres fonéticos para nomes estrangeiros (1802); os estudos de Thomas Young em 1814, que identificaram semelhanças estruturais profundas entre o demótico e os hieróglifos nos cartuchos reais; e, finalmente, a genialidade de Champollion ao perceber que o sistema hieroglífico combinava ideogramas e fonogramas não apenas para nomes próprios, mas também para o vocabulário nativo egípcio.

A relevância dessa decifração transcendeu a literatura e a religião: ela abriu os portais para a história da ciência. Sem o trabalho de Champollion, documentos matemáticos fundamentais que seriam descobertos mais tarde — como o Papiro de Rhind (ou Papiro de Ahmes) e o Papiro de Moscou — permaneceriam indecifráveis. Foi a chave de leitura obtida pela Pedra de Roseta que permitiu aos historiadores compreender o sistema numérico decimal não posicional dos egípcios, seus métodos engenhosos de multiplicação por duplicação, o cálculo de frações unitárias e suas surpreendentes aproximações geométricas, como o cálculo da área do círculo e o volume de um tronco de pirâmide.

Ao longo dos anos, duas outras cópias fragmentárias do mesmo decreto e inscrições trilíngues semelhantes (como o Decreto de Canopo de 238 a.C.) vieram à luz. Embora a Pedra de Roseta tenha perdido o status de peça única, seu valor histórico como pioneira permanece intacto. Tanto que, hoje, a expressão "Pedra de Roseta" tornou-se uma metáfora universal para designar qualquer pista ou ferramenta que sirva de chave para desvendar um campo inteiramente novo do conhecimento humano.

COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO: Título: A Pedra de Roseta. Publicado por Kleber Kilhian em 19/07/2017. URL: . Leia os Termos de uso.


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2 comentários:

  1. Não entendi a relação que pode haver entre a pedra Roseta e a matemática.

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    1. Depois que a pedra de Roseta foi encontrada, foi possível decifrar Os hieróglifos egípcios. E a partir daí, foi possível traduzir os papiros que continham centenas de problemas de matemática, a maioria aplicados ao dia a dia.

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