26/01/2010

A Química Newtoniana

Newton deixou suas marcas na mecânica, na matemática, na óptica, mas costuma-se esquecer de citar seus trabalhos no campo da química, dos quais destacam-se dois aspectos. Por um lado, distingue-se o Newton esotérico, envolvido durante toda a vida em pesquisas alquímicas; por outro lado, o Newton empenhado em aplicar seu método indutivo à interpretação da reatividade química. Seus trabalhos experimentais, embora abundantes e desenvolvidos com atenção aos detalhes, não deixariam marcas na história da química; mas suas interpretações mecanicistas influenciariam durante mais de um século os “filósofos da matéria”: a princípio somente os ingleses, depois também os continentais.

image [Figura 1: Laboratório Alquímico de Newton]

Newton sempre se interessou pela química e praticou as “artes químicas” desde o Trinity College, no início da década de 1660, até a casa da Moeda, em Londres (da qual foi nomeado diretor em 1697), que o aproxima da metalurgia. Entre 1675 e 1680 ele se corresponde principalmente com Robert Boyle, autor do Sceptical chemist (1661), obra capital que propões uma abordagem da noção moderna de elemento químico. A segunda metade do século XVII é também a da volta do atomismo, devida em grande medida a Pierre Gassendi, filósofo francês que reabilita na França o epicurismo e, portanto, o atomismo, numa época em que o Ocidente católico ainda é fracamente hostil aos filósofos materialistas.

Newton terá o cuidado de não divulgar seu interesse pela alquimia e só publicará suas reflexões mais bem-acabadas e menos esotéricas. É sobretudo em seu tratado Optikis, e principalmente na célebre questão XXXI da 2ª edição inglesa de 1717, que Newton expõe o fruto de suas “reflexões químicas”. Aí ele descreve as reações químicas com interações entre átomos (termo empregado por Newton), de moléculas (ele fala de partículas ou de corpos) e concebe a ligação química (ele chama de coesão) em termos de interações a “pequena distância” de origem elétrica. Notemos que essas hipóteses, guiadas unicamente pela intuição e pela observação do desenvolvimento de numerosas reações químicas, não poderiam, à época, ser comprovadas por dados experimentais quantitativos.

Essas reflexões sobre a reatividade, e, portanto, sobre a seletividade das reações químicas, serviriam de base para o desenvolvimento do conceito de afinidade química.

As reflexões Newtonianas de onde deriva a noção de força interparticular ou força de coesão num contexto atômico viriam a chamar a atenção dos físicos-químicos do começo do século XIX. No curso do século XVII, as idéias de Newton seriam comparadas com a teoria do flogístico do alemão Georg Ernst Stahl (1660 - 1734), que descreve as reações óxirredução (combustão, etc.) pela transferência do fluído hipotético, o flogístico, do corpo oxidado para o corpo oxidante. Os trabalhos de Newton serviriam de base aos atomistas, o mais conhecido dos quais é o inglês John Dalton (1766 - 1844); esse admirador de Newton foi o primeiro a relacionar dados experimentais quantitativos a uma descrição atomística da matéria e a propor uma tabela das massas atômicas (1803). Eles influenciariam também o francês Claude-Louis Berthollet (1748 - 1822), pioneiro da termodinâmica química, autor do célebre Ensaio de estática química (1803), onde se encontra a teoria das proporções variáveis (baseada na noção de força de coesão, essa teoria interpreta a influência das condições de reação sobre a natureza dos produtos formados e constitui a base da teoria dos equilíbrios químicos.

Num balanço final, distinguem-se duas facetas de um Newton preocupado em interpretar a dinâmica das reações químicas num contexto racional, ao mesmo tempo que se dedica à alquimia. Não obstante, os historiadores da química são concordes em afirmar que Newton é um dos co-fundadores do atomismo químico.

Referências:

[1] Scientifc American Brasil - Gênios da Ciência nº 1 - Newton, O Pai da Física Moderna


Veja mais:

A Mala de Newton
O Tempo Absoluto de Newton
EDO: A Lei da Refrigeração de Newton

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