A função erro $erf(x)$ tem uma longa história que começa com os artigos de De Moivre (1718-1733) e Laplace (1774), onde foi expressa através da seguinte integral:
\begin{equation*} \int e^{-t^2}dt \end{equation*}Mais tarde, Kramp (1799) utilizou esta integral para a definição da função de erro complementar $erfc(x)$.
A integral de probabilidade foi assim chamada porque é amplamente utilizada na teoria da probabilidade e estatística, aparecendo também em equações diferenciais parciais.
A função erro imaginário $erfi(z)$ também chamada de Função Erro de Gauss, foi desenvolvida para calcular a integral da distribuição normal. Gauss mostrou como a probabilidade pode ser representada por uma curva em forma de sino ou normal, onde o erro se distribui simetricamente com picos na média e caindo rapidamente para mais e menos infinito. Em 1809, Gauss usou esta função para analisar dados astronômicos.
A função erro é definida por:
A função erro complementar é definida por:
A função erro imaginário introduzida por Gauss é definida por:
Fazemos uma mudança de variável:
$$t=iy \Rightarrow dt=i\ dy$$Vejam que na integral dada em $(3)$, $t$ assume valores de $0$ a $iz$ e com a mudança de variável, teremos que:
Obtemos então:
Como $i^2=-1$, temos:
Podemos expressar $(5)$ em termos de $t$:
Proposição:
Vamos provar que:
\begin{equation*} \lim_{x \rightarrow +\infty}erf(x)=1 \end{equation*}Demonstração:
Seja $I$ o limite acima. Assim:
e
Multiplicando as expressões $(7)$ e $(8)$, obtemos:
Observe que a região de integração é o $1^\circ$ quadrante. Para resolver a integral dupla $(9)$, De Moivre teve a ideia de usar coordenadas polares, fazendo $u=r\ \cos(\theta)$ e $v=r\ \text{sen}(\theta)$. O elemento de área $du\ dv$ está relacionado com o elemento $dr\ d\theta$ através da expressão:
\begin{equation*} du\ dv=\left | J \right |dr\ d \theta \end{equation*}onde $J$ é o Jacobiano da transformação dado por:
\begin{equation*} J=\frac{\partial (u,v)}{\partial (r, \theta)} \\ \ \\ J=\begin{vmatrix} \displaystyle \frac{\partial u}{\partial r} & \displaystyle \frac{\partial u}{\partial \theta}\\ \\ \displaystyle \frac{\partial v}{\partial r} & \displaystyle \frac{\partial v}{\partial \theta} \end{vmatrix} = \begin{vmatrix} \cos(\theta) & -r\ \text{sen}(\theta)\\ \\ \text{sen}(\theta) & r\ \cos(\theta) \end{vmatrix} \\ \ \\ J = r\cos^2(\theta)+r\ \text{sen}^2(\theta)=r \end{equation*}Assim, $du\ dv=r\ dr\ d\theta$, de modo que:
\begin{equation*} I^2= \frac{4}{\pi}\int_0^{\pi/2}\int_0^{+\infty}e^{-r^2}\cdot r\ dr\ d\theta \\ \ \\ I^2= \frac{4}{\pi}\int_0^{\pi/2}d\theta \cdot \lim_{p \rightarrow +\infty}\int_0^pe^{-r^2}\cdot r\ dr \\ \ \\ I^2=\frac{4}{\pi}\cdot \frac{\pi}{2}\cdot \lim_{p \rightarrow +\infty}\left[-\frac{1}{2}e^{-r^2}\right]_0^p \\ \ \\ I^2=2\cdot \lim_{p \rightarrow +\infty} \left[-\frac{1}{2}e^{-p^2}+\frac{1}{2}\right]\Rightarrow \\ \ \\ I^2=1 \\ \ \\ I=1 \end{equation*}Observação: Os limites de integração foram $0\leq\theta\leq\pi/2$ e $0\leq r <+\infty$, pois desta forma, preenchemos o $1^\circ$ quadrante, que é a região de integração das variáveis antigas.
Corolário:
\begin{equation*} \lim_{x \rightarrow -\infty}erf(x)=1 \end{equation*}Demonstração:
onde $y=-x$. Se $x \rightarrow -\infty$, então $y\rightarrow +\infty$.
No penúltimo passo, usamos o fato de que a função $erf(x)$ é par.
Exemplo 1:
A função gama denotada por $\Gamma(x)$ é definida por:
\begin{equation*} \Gamma(x)=\int_0^{+\infty}t^{x-1}e^{-t}dt\text{ , }x>0 \end{equation*}Mostre que: $\Gamma (1/2)=\sqrt{\pi}$.
Façamos $t=u^2$ na integral acima. Note que $dt=2udu$ e que os limites de integração são os mesmos. Assim:
\begin{equation*} \Gamma(1/2)=\int_0^{+\infty}(u^2)^{\frac{1}{2}-1}e^{-u^2}\cdot 2u\ du \\ \ \\ \Gamma(1/2)=2\cdot \int_0^{+\infty}u^{-1}\cdot e^{-u^2}\cdot u\ du \\ \ \\ \Gamma(1/2)=2\cdot \int_0^{+\infty}e^{-u^2}du \\ \ \\ \Gamma(1/2)=\sqrt{\pi}\cdot \frac{2}{\sqrt{\pi}}\int_0^{+\infty}e^{-u^2}du \\ \ \\ \Gamma(1/2)=\sqrt{\pi} \cdot \lim_{p \rightarrow +\infty}\frac{2}{\sqrt{\pi}}\int_0^pe^{-u^2}du \\ \ \\ \Gamma(1/2)=\sqrt{\pi} \cdot \lim_{p \rightarrow +\infty}erf(p)=\sqrt{\pi}\cdot 1=\sqrt{\pi} \end{equation*}Exemplo 2:
Vamos calcular a integral $\displaystyle \int x^2 e^{x^2}dx$. Temos que:
Aplicamos o método de integração por partes, de modo que:
\begin{equation*} u=x \Rightarrow \frac{du}{dx}=1 \Rightarrow du=dx \end{equation*}e
\begin{equation*} dv=xe^{x^2}dx \Rightarrow v=\frac{e^{x^2}}{2} \end{equation*}Observação: Para integrarmos $\displaystyle dv=xe^{x^2}dx$, aplicamos o método de integração por substituição. Seja $u=x^2$ e $du=2x\ dx$. Assim, se $dv=xe^{x^2}$ então:
\begin{equation*} v=\int xe^{x^2}dx \\ \ \\ v=\int \frac{xe^u}{2x}du \\ \ \\ v=\frac{1}{2}\int e^udu \end{equation*}Como a integral de $e^u=e^u$, temos:
\begin{equation*} v=\frac{1}{2}e^u+C \\ \ \\ v=\frac{e^u}{2}+C \\ \ \\ v=\frac{e^{x^2}}{2}+C \end{equation*}Retomando as ideias, temos pela integração por partes que:
\begin{equation*} \int udv=uv-\int vdu \end{equation*}Assim:
Autores:
- Kleber Kilhian
- Paulo Sérgio Costa Lino
Oi, Kleber! Queria relatar uma experiência que fizemos no laboratório de Física: Medimos (com miicrômetro)o diâmetro de +/- 400 bolinhas de chumbo que segundo o fabricante teria 3mm de diâmetro, a média deu 3,00mm e o desvio não me lembro bem próximo de 0,5 mm aí fizemos um gráfico de barras com a distribuição das medidas e sobrepusemos o grafico da função erro deslocada. Incrível como os pontos coincidiam. Isso só pode ser "mágica". O que tem a ver a curva de e^(-x^2)com o processo de fabricação?
ResponderExcluirPara mim isso é surpreendente. Obrigado abrçs.
Olá Tavano! Experiência interessante. O resultado surpreendente não é a toa, acredito que experiências como essa devam obedecer a curva. Os antigos sabiam das coisas...
ExcluirNa minha graduação as aulas de estatística e probabilidade foram "nas coxas" e o pouco que aprendi acabei esquecendo por não ter gostado. Esta postagem foi boa para relembrar algumas coisas.
O Paulo ajudou muito, pois tem uma mente privilegiada, um mestre e tanto!
Grande abraço!
Já tinhamos tentado usar a função erro, mas não sabia que podia usa-la sem os limites de integração, no caso de integral indefinida. Pode mesmo?
ResponderExcluirPode desde que acrescente a constante de integração no final. No exemplo 2, houve um pequeno erro de digitação, trocando x por z.
ExcluirOlá novamente. Parabéns pelo trabalho.
ResponderExcluirGostaria de pedir uma postagem sobre o determinante jacobiano. Ele não aparece muito em livros de cálculo básicos. Parece-me que o que aparece mais ou menos melhor é o do Simmons. Os outros não me satisfizeram.
Este assunto é chave para mudança de variáveis em integrais múltiplas (como nesta sua postagem) e caminha para outros mais avançados como covariantes e contravariantes. E se não estiver enganado em mudança de sistemas de coordenadas de operadores vetoriais. Ufa!
Estou aprendendo e a caminhada é longa. Valeu!
Prezado Kleber,
ResponderExcluirVoce sabe porque essa funçao e chamada de "erro" (meu noteb nao esta acentuando...).
Olá Ricardo.
ExcluirNão sei o por que do nome. Procurei na internet mas não encontrei uma resposta. Fico devendo essa.
Um abraço.
Creio que o nome "função erro" se deriva das teorias de cálculo numérico para encontrar aproximações de soluções de problemas que não possuem solução analítica. Por exemplo, o método de Simpson.
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