10/01/2026

Como dividir os números de 1 a 2n em pares cuja soma é um primo

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Dado um conjunto de números inteiros consecutivos de $1$ até $2n$, podemos dividi-los em $n$ pares distintos de modo que a soma de cada par resulte em um número primo.

Para esta demonstração, utilizaremos o Postulado de Bertrand (também conhecido como Teorema de Bertrand-Chebyshev) e a técnica de indução matemática.

O Postulado de Bertrand estabelece que, para qualquer inteiro $k > 1$, existe sempre pelo menos um número primo $p$ tal que $k < p < 2k$. Esta afirmação foi conjecturada pelo matemático francês Joseph Bertrand em 1845 e demonstrada pelo matemático russo Pafnuty Lvovich Chebyshev em 1850. Mais tarde, em 1932, em seu primeiro artigo, o célebre matemático húngaro Paul Erdös publicou uma demonstração mais elegante e simplificada deste teorema.

Apoiados nesta garantia de que sempre encontraremos um número primo em intervalos específicos, mostraremos que o conjunto $\{1, 2, 3, \dots, 2n\}$ pode ser totalmente particionado em pares $\{a_1, b_1\}, \{a_2, b_2\}, \dots, \{a_n, b_n\}$, tal que cada soma $a_i + b_i$ seja um número primo.

Vamos tomar o caso base $n=1$. Assim, obtemos conjunto numérico $\{1,2\}$. Para este conjunto, o único par possível é $(1,2)$. A soma desse par é $1+2=3$, que é um número primo, confirmando o teorema para o início da indução.

Suponhamos que o teorema é verdadeiro para todos os valores menores que $2n$. Queremos provar que também é verdadeiro para o conjunto $\{1,2,3\cdots ,2n\}$.

Pelo Postulado de Bertrand, para todo inteiro $k \geq 1$, existe um primo $p$ entre $k$ e $2k$. Fazendo $k=2n$, existem um primo tal que:

$$ 2n < p < 4n $$

Como $p$ é primo maior que $2$, ele é obrigatoriamente ímpar. Sendo assim, podemos expressá-lo como a soma do limite superior par $(2n)$ e um número ímpar $m$ menor que ele:

$$ p = 2n + m $$

sendo $1 \leq m < 2n$.

Observe que $m$ deve ser ímpar, porque $p$ é primo e $2n$ é par. Fazemos:

$$ m = p -2n $$

Utilizando o número $m$ para emparelhar os números maiores (próximos a $2n$) com os números menores (próximos a $1$), formamos os pares:

  • $(2n,m)$: $2n+m=p$
  • $(2n-1,m+1)$: $2n+m=p$
  • $(2n-2,m+2)$: $2n+m=p$
  • $\cdots$
  • Continuamos até que todos os números entre $m$ até $2n$ tenham sido utilizados.

Note que a soma de cada um destes pares é genericamente:

$$ (2n-k)+(m+k)=2n+m=p $$

Após este processo, todos os números de $m$ a $2n$ foram emparelhados. O que resta é o conjunto $\{1,2,3,\cdots \ m-1\}$. Como $m$ é ímpar, o tamanho deste no conjunto $m-1$ é par.

De acordo com a hipótese indutiva, qualquer conjunto de tamanho par menor que o original também pode ser particionado em pares, cuja soma resulte um um primo. Assim, o processo se repete com a sobra até que todos os números do conjunto original de $1$ a $2n$ estejam devidamente pareados.


Exemplo 1:

Considere $n=5$. Vamos aplicar a lógica no conjunto:

$$ \{1,2,3,4,5,6,7,8,9,10\} $$

onde $2n=10$

Queremos encontrar um primo tal que $10 < p < 20$. Vamos escolher o primo $p=11$. Em seguida, calculamos $m$:

$$ m = p-2n\\ \ \\ m = 11 - 10\\ \ \\ m = 1 $$

É recomendável escolher o primo $p$ mais próximo possível de $2n$, pois, como $m$ será o par de $2n$, quanto menor for o valor de $m$, mais números utilizamos na primeira etapa, reduzindo a necessidade de etapas subsequentes.

Precisamos, então, formar pares que somem $11$, começando de $10$ para baixo:

  • $(10,1)$: $10+1=11$
  • $(9,2)$: $9+2=11$
  • $(8,3)$: $8+3=11$
  • $(7,4)$: $7+4=11$
  • $(6,5)$: $6+5=11$

Vejam que neste caso, como escolhemos $p=11$, o valor de $m=1$. Isso permitiu que todos os números do conjunto fossem utilizados logo na primeira etapa.

Para ilustrar por que a escolha do menor primo $p$ possível influencia na velocidade da resolução do problema, vamos repetir o processo para o mesmo conjunto de $1$ a $10$, mas desta vez tomando o primo $17$. Assim, calculamos $m$:

$$ m=17-10=7 $$

Formamos os pares que somam $17$:

  • $(10,7)$: $10+7 = 17$
  • $(9,8)$: $9+8=17$

Escolhendo $p=17$ conseguimos eliminar apenas $4$ dos $10$ números que compõem o conjunto numérico. Restou-nos, então, o conjunto:

$$ \{1,2,3,4,5,6\} $$

Aplicando novamente o método, mas agora com um novo limite de $2n=6$. Pelo Postulado de Bertrand, existe um primo entre $6$ e $12$. Vamos escolher o maior primo no intervalo, que é $p=11$. Assim, calculamos $m$:

$$ m = 11-6 = 5 $$

Formamos o par que soma $11$:

  • $(6,5)$: $6+5=11$

Este foi o único par possível nesta etapa. Ainda restou o conjunto: $\{1,2,3,4\}$. Repetimos o processo para o novo limite $2n=4$. Escolhendo o primo $p=5$, temos que $m=5-4=1$. Formamos os pares:

  • $(4,1)$: $4+1=5$
  • $(3,2)$: $3+2=5$

Deste modo, chegamos ao fim, particionando todo o conjunto original em pares cuja soma resulta em números primos. Embora o caminho tenha sido mais longo, a estratégia da indução garantiu o sucesso.

COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO: Título: Como dividir os números de 1 a 2n em pares cuja soma é um primo. Publicado por Kleber Kilhian em 10/01/2026. URL: . Leia os Termos de uso.


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