Geralmente tratamos problemas de Física desprezando a resistência do ar para facilitar nossos cálculos. No entanto, essa resistência existe e, aqui, vamos ver uma equação diferencial para a queda de corpos considerando a resistência do ar.
1. O modelo físico e a Segunda Lei de Newton
Consideremos um corpo de massa $m$ em queda livre vertical, onde atuam somente a força da gravidade $g$ e a resistência do ar proporcional à velocidade do corpo. Precisamos admitir que tanto a gravidade como a massa deste corpo permaneçam constantes durante a queda.
Para corpos em queda livre, devemos adotar um sentido (para baixo ou para cima) como positivo. Convenientemente, vamos adotar o sentido para baixo como sendo sentido positivo.
Segundo a Segunda Lei de Newton: A força resultante que atua sobre um corpo é igual à taxa de variação da quantidade de movimento (momentum) do corpo, ou, para uma massa constante:
onde $F$ é a força resultante que atua sobre o corpo e $v$ é a velocidade do corpo, consideradas no instante $t$.
Forças atuantes:
Em um corpo em queda livre, há duas forças atuando sobre ele:
1. A primeira é a força peso $p$ que atua no sentido do movimento (para baixo, portanto positiva):
2. A segunda é a força de resistência do ar $F_{ar}$, proporcional à velocidade atua no sentido contrário ao movimento (para cima, portanto negativa):
onde $k \geqslant 0$ é uma constante de proporcionalidade do atrito com o ar.
A força resultante $F$ será a soma dessas forças:
2. Construindo a equação diferencial (EDO)
Se substituirmos $(4)$ em $(1)$, obteremos:
Para resolver essa equação, vamos isolar os termos com a variável $v$ do mesmo lado:
1. Somamos $kv$ em ambos os lados para agrupar as forças:
2. Dividimos todos os termos da equação pela massa $m$ para isolar a derivada:
3. Simplificando, chegamos à forma padrão de uma EDO linear de primeira ordem:
3. Resolvendo pelo método do fator integrante
A equação $(5)$ possui a forma clássica:
onde $P(t) = \frac{k}{m}$ e $Q(t) = g$.
Para resolver esta equação, usamos a técnica de fator integrante dado por:
Multiplicando $(6)$ por $(5)$, obtemos:
A regra do produto:
Observe que o lado esquerdo de $(7)$ é exatamente o resultado da derivada do produto de duas funções:
Se aplicarmos a regra do produto $f^\prime (u \cdot v) = u^\prime v + u v^\prime$, veremos que:
Portanto, podemos reescrever o lado esquerdo da forma compacta:
4. Integrando e isolando a velocidade
Para nos livrarmos da derivada no lado esquerdo, integramos ambos os lados em relação ao tempo $(t)$:
Para resolvermos a integral do lado direito, usamos o método de integração de substituição, fazendo $u=\dfrac{kt}{m}$. Assim, $dt = \dfrac{m}{k} du$:
Substituindo de volta na equação e adicionando a constante de integração $C$:
Para isolar a velocidade $v(t)$, dividimos toda a equação por $e^{kt/m}$, que é o mesmo que multiplicar por $e^{- kt/m}$:
Ou seja:
5. Determinando a constante $C$ (problema de valor inicial)
Para encontrarmos o valor exato de $C$, usamos a condição inicial do corpo: no instante $t=0$, a velocidade inicial é $v(0) = v_0$. Substituindo $t=0$ na equação, obtemos:
Como $e^0=1$, temos:
Isolando $C$:
Substituindo este valor de $C$ de volta na equação da velocidade, encontramos a solução geral:
que é a velocidade em cada instante.
6. Análise de casos limites
Se não houver resistência do ar $(k=0)$
Se a resistência do ar é desprezível e a equação $(5)$ se reduz a:
Velocidade limite (terminal)
Se o corpo cai por muito tempo $(t \longrightarrow \infty)$, o termo exponencial $e^{-kt/m}$ tende a zero. Graficamente, a velocidade para de aumentar e se estabiliza. Essa velocidade limite $(v_1)$ ocorre quando a força de atrito iguala o peso:
Uma observação importante é que as equações $(5)$ e $(11)$ são válidas somente se as condições dadas forem substituídas. Se a velocidade for muito alta, a resistência do ar deixa de ser proporcional à velocidade e passa a ser proporcional ao quadrado da velocidade, então a equação diferencial torna-se não linear, exigindo outros métodos de resolução (como a separação de variáveis).
7. Exemplo
Deixa-se cair um corpo de massa de $5\ kg$ de uma altura de $100\ m$, com velocidade inicial zero. Supondo que não haja resistência do ar, determine:
- A expressão da velocidade do corpo no instante $t$;
- A expressão da posição do corpo no instante $t$;
- O tempo necessário para o corpo atingir o solo.
Primeiramente adotamos o sistema de coordenada como na figura abaixo, sendo positivo o sentido para baixo.
1. Expressão da velocidade:
Como não há resistência do ar, usamos a equação $(10)$:
Essa é uma equação linear separável. Assim:
Como o corpo partiu do repouso $v(0) = 0$, temos que $C=0$, logo:
2. Expressão da posição:
Sabemos que a velocidade é a derivada da posição em relação ao tempo $\left(v = \dfrac{dx}{dt}\right)$. Então:
Adotando a origem no ponto de soltura $\big( x(0)=0 \big)$, a constante $C$ se anula. Assim, a função horária da posição é dada por:
3. Tempo para atingir o solo:
Para $x(t)=100$, fazemos:
Se adotarmos a aproximação $g=9,8\ m/s^2$, teremos:
O corpo leva aproximadamente $4,5$ segundos para atingir o solo.
A versão final ficou muito boa. Obrigado por citar o blog e o post sobre a velocidade terminal de um pára-quedas. Abraços!
ResponderExcluirQue bom que gostou. Sem sua ajuda acho que não sairia dessa forma.
ResponderExcluirUm abraço!
Interessante que você utilizou -kv para a força de arrasto. No livro Dinâmica Clássica de Partículas, Marion e Thornton pág. 52, é utilizado -kmv, a massa então é cancelada em ambos os lados da equação e a solução não depende da massa.
ResponderExcluirhumm, vou pesquisar este livro para ver o desenvolvimento.
ResponderExcluirAgradeço seu comentário e observação.
Um abraço.
valeu, muito bom
ResponderExcluirUhuuulll...
ResponderExcluirEstavamos queimando nossos neurônios aqui... Valeu meeeesmo!!!!
Agora vamos formar... \o
Oi!. Se não houvesse o atrito a equação seria a=g certo? Mas isto não resultaria em uma equação horária onde y cresceria indefinidamente $y=y_{0}+v_{0}t+\frac{g}{2}t^2$?
ResponderExcluirSim, mas se adotamos altura inicial sendo zero e a velocidade inicial igual a zero, caímos na mesma equação: $x(t)=\dfrac{gt^2}{2}$.
ResponderExcluirOi! Você poderia escrever para mim os vetores aceleração, velocidade e posição?
ResponderExcluirÉ que estou encafifado com os sinais. Me parece que na letra c) do exemplo você trocou pois se a pedra caiu de uma altura de 100 m então temos $x(0)=100$ e $x(t)=0$....
ResponderExcluirAdriano, veja que o eixo vertical está orientado para baixo, sendo positivo para baixo. para $x(t)=0$ temos $t=0$, que é no instante em que o corpo é largado de uma altura de 100m. Para $x(t)=100$, ou seja, a distância total até o solo, gasta-se 4,5s.
ResponderExcluirTem uma regrinha que usava, vou tentar lembrar agora:
Orientação Vertical de Baixo para Cima
1) Na descida, a velocidade é negativa;
2) $g$ é sempre negativa;
3) $y_0$ está no ponto de origem da queda do corpo;
4) $y$ é o ponto final do deslocamento do corpo.
Lançamento Vertical
1) Na subida, a velocidade é positiva;
2) $g$ é sempre negativa;
3) $y_0$ é o ponto de origem do lançamento;
4) $y$ é o ponto máximo que o corpo atinge.
Com isso podemos montar uma figura representativa que facilita a visualização.
Veja as imagnes neste link:
Excluirhttp://obaricentrodamente.blogspot.com.br/2009/05/equacao-do-movimento.html
Isso é coisa do tinhoso...
ResponderExcluirEu não acredito que vou ter que aprender tudo isso!
Me salva, me diz que só vou ter aprender isso beeeem mais tarde... (sou nono ano (fundamental II)
Você só terá que aprender isso se for fazer exatas na faculdade.
ExcluirProfesor, uma dúvida... Vi em um livro de física que a força de arrasto é proporcional ao quadrado da velocidade (mais precisamente F = C . r . A . v^2 onde C é o coeficiente de arasto, r é a densidade do ar e A a área da seção transversal do corpo) mas aqui está dizendo que a força é apenas proporcional à velocidade... Como definimos o coeficiente k então?
ResponderExcluirEduardo, este artigo não mostra como determinar o coeficiente de arrasto, já que este é determinado experimentalmente. Veja os links do Wikipédia:
ResponderExcluirEquação do arrasto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Equa%C3%A7%C3%A3o_do_arrasto
Coeficiente do arrasto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_arrasto
Um abraço.
Num exercicio ele me da g=dv/dt + (kv^2)/m, qu método de integração eu utilizo, ja que tenho v^2?
ResponderExcluirOlá amigo, neste caso, faça a separação das variáveis. Veja esta EDO resolvida neste artigo:
Excluirhttp://fatosmatematicos.blogspot.com.br/2010/04/velocidade-terminal-de-um-para-quedas.html
Abraços!
se eu mudasse a forma geometrica do objeto que está em queda livre, por exemplo, uma pessoa saltando e depois abrindo o para-quedas... consequentemente a restistencia do ar aumentaria, como eu resolveria esse problema??
ResponderExcluirobrigado!
Veja o problema do para-quedas no link abaixo:
ResponderExcluirhttp://fatosmatematicos.blogspot.com.br/2010/04/velocidade-terminal-de-um-para-quedas.html
Abraços!
precisa ser convidado para olhar.
Excluirmeu email: pcaetaninha@gmail.com
Belo texto. Parabéns. A algum tempo atrás, eu escrevi um pequeno texto para o Portal Píon da Sociedade Brasileira de Física reportando o mesmo problema, porém especificamente, perguntando se é mais rápido para um corpo subir ou descer.
ResponderExcluir(http://www.sbfisica.org.br/v1/pion/index.php/publicacoes/artigos/54-subir-ou-descer)
Disponibilizei-o recentemente no meu blog (http://jefsrodrigues.blogspot.com.br/2012/11/o-que-e-mais-rapido-subir-ou-descer.html). São temas relacionados, fantástico!
Att.
o que vem a ser o w na equação?? e se eu no caso for proporcional a velocidade ao quadrado (kv²) é so substituir v por v² nas equaçoes?
ResponderExcluirVeja que para resolver a equação (5), usamos o fator integrante dado em (6), de modo que $w$ é uma mudança de variável.
ResponderExcluirPara $v^2$, neste caso, faça a separação das variáveis. Veja esta EDO resolvida neste artigo:
http://fatosmatematicos.blogspot.com.br/2010/04/velocidade-terminal-de-um-para-quedas.html
Abraços.
mas teria algum problema nas equações se substituir diretamente v por v²?
Excluirdesde já , obrigado.
Sim. Para cada caso, tem um método específico de resolução. PAra $v^2$ faz-se a separação de variáveis e para $v$ usa-se o fator integrante.
ExcluirObrigado. Você sabe me dizer quando se utiliza v ou v². Obrigado de novo!!
ExcluirCaro Professor,tem um exercicio semelhante a este que não estou conseguindo resolver (traduzido do meirovitch-Methods of Analitical Dynamics):
ResponderExcluirUma partícula de massa m é lançada verticalmente com velocidade V num campo gravitacional uniforme g. Considerando o atrito viscoso do ar diretamente
proporcional à velocidade ( f = -cV ) determine o tempo necessário para que a partícula retorne ao ponto de partida. Com que velocidade essa partícula retorna?
O Sr poderia, por favor, dar uma ajuda?
Interessante desenvolvimento. Em modelos mais avançados, tem-se que a força de arrasto é proporcional ao quadrado da velocidade, mas aí tem-se o inconveniente da EDO do sistema não ser mais linear.
ResponderExcluirTem um livro, acho, Kazunoru Watari, da USP, que fala mais dessa exponencial em queda livre, bem como correlatos. É mais complicado que o $$h=gt^2/2$$ do colegial. Excelente.
ResponderExcluirOLA GOSTARIA DE SABER QUAL A INFLUENCIA DA RESISTENCIA DO AR
ResponderExcluiroi pessoal queria uma ajuda,como isolar a massa na formula da velocidade do paraquedista em queda live v(t) = g * m * ( 1 – e – (c / m) * t))/ c
ResponderExcluirProfessor, não entendi a parte que você considerou o fato que v(0) = v0, sei que usou isso porque se trata de uma queda livre e portanto a velocidade inicial é igual a zero, mas não entendi porque você substituiu a constante c por $v(0) - (mg/k)$. Fazendo as contas eu achei que a constante c deveria ser substituída por $(-mg/k) * e^(k/m)$ quando V(0)=0. Como você conseguiu substituir dessa forma? Obrigado desde já pela atenção!
ResponderExcluirPoderia ser mais claro(Passo a Passo), para leigos.
ResponderExcluirEu pergunteiao meu professor ele me explicou q a substituiçao de v^2 por v e pq v^2 e a velocidade relativa e ela depende da velocidade do movel q tbm varia sendo assim podemos. Substituir v^2por v(t) e utilizar o fator integrante e resolver a equaçao
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