04/10/2026

Propriedades das diagonais do heptágono regular


O heptágono regular é um dos polígonos regulares que não podem ser construídos com régua e compasso clássicos, mas possui uma propriedade interessante envolvendo duas classes de diagonais. Se o lado do heptágono tiver comprimento unitário, isto é, $a = 1$, então a soma da diagonal menor com a diagonal maior é exatamente igual ao produto dessas duas diagonais:

$$ d_1 + d_2 = d_1 d_2 \tag{1} $$

Neste artigo, vamos identificar as duas diagonais do heptágono, demonstrar a relação utilizando um quadrilátero cíclico formado por quatro de seus vértices utilizando o Teorema de Ptolomeu e, em seguida, generalizar o resultado para um heptágono cujo lado tenha medida arbitrária $k$.


1. As diagonais do heptágono regular

Considere um heptágono regular $ABCDEFG$, com os vértices nomeados em sentido horário e todos os lados medindo $a=1$:

Em um heptágono regular, existem apenas dois comprimentos distintos de diagonais: A diagonal menor e a diagonal maior.


1.1. Diagonal menor

A diagonal menor une dois vértices separados por um único vértice. Por exemplo:

[heptagono e suas diagonais menores]
$$ d_1 = AC = BD = CE = DF = EG = FA = GB $$

Essas diagonais correspondem às cordas da circunferência que subtendem um arco formado por dois lados consecutivos do heptágono.

1.2. Diagonal maior

A diagonal maior une dois vértices separados por dois vértices intermediários. Por exemplo:

[heptagono e suas diagonais maiores]
$$ d_2 = AD = BE = CF = DG = EA = FB = GC $$

Essas diagonais correspondem às cordas que subtendem um arco formado por três lados consecutivos do heptágono.

Como três lados correspondem a um arco maior do que o arco correspondente a dois lados, temos naturalmente:

$$ d_2 > d_1 $$

2. Demonstração através do Teorema de Ptolomeu

O Teorema de Ptolomeu afirma que, em qualquer quadrilátero cíclico, o produto das diagonais é igual à soma dos produtos dos pares de lados opostos.

$$ AC \cdot BD = AB \cdot CD + BC \cdot AD \tag{2} $$

A grande vantagem do heptágono regular é que podemos escolher quatro de seus vértices de maneira que os segmentos envolvidos no Teorema de Ptolomeu sejam precisamente $d_1$ e $d_2$.


2.1. O quadrilátero $ABCE$

Vamos considerar os vértices $A$, $B$, $C$ e $E$ do heptágono regular. Como todos eles pertencem à circunferência circunscrita, o quadrilátero $ABCE$ é cíclico.

Vamos identificar seus lados e diagonais:

  • $AB = 1$
  • $BC = 1$
  • $CE = d_1$
  • $EA = d_2$

As diagonais do quadrilátero são:

  • $AC = d_1$
  • $BE = d_2$

Aplicando o Teorema de Ptolomeu ao quadrilátero $ABCE$, temos:

$$ AC \cdot BE = AB \cdot CE + BC \cdot EA $$

Substituindo os comprimentos conhecidos:

$$ d_1 \cdot d_2 = 1 \cdot d_1 + 1 \cdot d_2. $$

Logo:

$$ d_1 d_2 = d_1 + d_2 \tag{3} $$

Está demonstrada a relação procurada.

A escolha do quadrilátero $ABCE$ é particularmente conveniente, porque os quatro lados são justamente compostos por dois lados do heptágono e pelas duas classes de diagonais:

$$ AB = BC = 1, \quad CE = d_1,\quad EA = d_2 $$

E como as diagonais do quadrilátero são exatamente $d_1$ e $d_2$, aplicando o Teorema de Ptolomeu encontramos rapidamente a relação:

$$ d_1 d_2 = d_1 + d_2 $$

Não é necessário conhecer previamente os valores exatos das diagonais para estabelecer essa relação.


3. Valores numéricos das diagonais

Embora a igualdade anterior possa ser demonstrada sem calcular individualmente as diagonais, podemos obter seus valores por meio da geometria das cordas de uma circunferência.

Como $R$ é o raio da circunferência circunscrita ao heptágono, o lado e as duas diagonais são cordas que subtendem ângulos centrais de $\dfrac{2π}{7}$, $\dfrac{4π}{7}$ e $\dfrac{6π}{7}$, respectivamente.

Utilizamos a fórmula para calcular uma corda em uma circunferência:

$$ c = 2\ r \ \text{sen}\left(\frac{\theta}{2}\right) \tag{4} $$

3.1. Ângulo central de $\dfrac{2\pi}{7}$:

Neste caso, tomamos a corda $AB$, que é igual a $a=1$:

$$ 1 = 2\ R\ \text{sen} \left( \dfrac{\dfrac{2\pi}{7}}{2} \right) \\[1em] 1 = 2\ R\ \text{sen} \left( \dfrac{\pi}{7} \right) $$

Isolando $R$, obtemos:

$$ R = \frac{1}{2\ \text{sen} \left( \dfrac{\pi}{7} \right)} \tag{5} $$

3.2. Ângulo central de $\dfrac{4\pi}{7}$:

Neste caso, tomamos a corda $AC$, que é a diagonal menor $d_1$:

$$ d_1 = 2\ R\ \text{sen} \left( \dfrac{\dfrac{4\pi}{7}}{2} \right) \\[1em] d_1 = 2\ R\ \text{sen} \left( \dfrac{2\pi}{7} \right) $$

Substituindo o valor de $R$:

$$ d_1 = 2\ R\ \text{sen} \left( \dfrac{2\pi}{7} \right)\\[1em] d_1 = 2\cdot \frac{1}{2\ \text{sen} \left( \dfrac{\pi}{7} \right)} \cdot \text{sen} \left( \dfrac{2\pi}{7} \right) $$

Obtendo:

$$ d_1 = \frac{\text{sen} \left( \dfrac{2\pi}{7} \right)}{\text{sen} \left( \dfrac{\pi}{7} \right)} \tag{6} $$

Observe que argumento do seno no numerador é o dobro do denominador. Assim, podemos usar a identidade do arco duplo, onde:

$$ \text{sen}(2x) = 2\ \text{sen}(x)\ \text{cos}(x) $$

Fazendo $x=\dfrac{\pi}{7}$, temos:

$$ \text{sen}\left(\frac{2\pi}{7}\right) = 2\ \text{sen}\left(\frac{\pi}{7}\right)\ \text{cos}\left(\frac{\pi}{7}\right) $$

Substituindo em $(6)$, obtemos:

$$ d_1 = \frac{2\ \text{sen}\left(\dfrac{\pi}{7}\right)\ \text{cos}\left(\dfrac{\pi}{7}\right)}{\text{sen} \left( \dfrac{\pi}{7} \right)} $$

Simplificando, obtemos:

$$ d_1 = 2\ \text{cos} \left(\dfrac{\pi}{7}\right) \tag{7} $$

Numericamente:

$$ d_1 \approx 1,801937736 $$

3.3. Ângulo central de $\dfrac{6\pi}{7}$:

Neste caso, tomamos a corda $AD$, que é a diagonal maior $d_2$:

$$ d_2 = 2\ R\ \text{sen} \left( \frac{\dfrac{6\pi}{7}}{2} \right) \\[1em] d_2 = 2\ R\ \text{sen} \left( \frac{3\pi}{7} \right) $$

Substituindo o valor de $R$:

$$ d_2 = 2\ \cdot \frac{1}{2\ \text{sen} \left( \dfrac{\pi}{7} \right)} \cdot \text{sen} \left( \frac{3\pi}{7} \right) $$

Simplificando, obtemos:

$$ d_2 = \frac{\text{sen}\left(\dfrac{3\pi}{7}\right)}{\text{sen}\left(\dfrac{\pi}{7}\right)} \tag{8} $$

Observe que o argumento do seno que está no numerador é o triplo do que aparece no denominador. Usamos a identidade do arco triplo:

$$ \text{sen}(3x) = 3\ \text{sen}(x) - 4\ \text{sen}^3 (x) $$

Fazendo $x = \dfrac{\pi}{7}$, temos:

$$ \text{sen}\left(\dfrac{3\pi}{7}\right) = 3\ \text{sen}\left(\dfrac{\pi}{7}\right) - 4\ \text{sen}^3 \left(\dfrac{\pi}{7}\right) $$

Substituindo em $(8)$, obtemos:

$$ d_2 = \frac{3\ \text{sen}\left(\dfrac{\pi}{7}\right) - 4\ \text{sen}^3 \left(\dfrac{\pi}{7}\right)}{\text{sen}\left(\dfrac{\pi}{7}\right)} \\[1em] d_2 = 3 - 4\ \text{sen}^2 \left(\frac{\pi}{7}\right) $$

Usamos a identidade trigonométrica fundamental:

$$ \text{sen}^2 (x) = 1 - \text{cos}^2 (x) $$

Obtemos:

$$ d_2 = 3 - 4\ \left[ 1 - \text{cos}^2 \left( \frac{\pi}{7} \right) \right] \\[1em] d_2 = 3 - 4 + 4\ \text{cos}^2 \left( \frac{\pi}{7} \right) $$

Chegamos à relação:

$$ d_2 = 4\ \text{cos}^2 \left( \frac{\pi}{7} \right) - 1 \tag{9} $$

Numericamente:

$$ d_2 \approx 2,246979604 $$

Esses valores confirmam a desigualdade esperada:

$$ d_2 > d_1 > 1 $$

4. Verificação numérica da relação

Utilizando os valores aproximados:

$$ d_1 \approx 1,801937736 $$ $$ \text{e} $$ $$ d_2 \approx 2,246979604, $$

Calculamos a soma:

$$ d_1 + d_2 \approx 1,801937736 + 2,246979604 \\[1em] d_1 + d_2 \approx 4,048917340 $$

Agora calculamos o produto:

$$ d_1 d_2 \approx 1,801937736 \times 2,246979604 \\[1em] d_1 d_2 \approx 4,048917340 $$

Portanto:

$$ d_1 + d_2 = d_1 d_2 $$

5. A relação quadrática entre $d_1$ e $d_2$

Partindo da relação da diagonal menor:

$$ d_1 = 2\ \text{cos}\left(\frac{\pi}{7}\right) $$

Elevamos ambos os membros ao quadrado:

$$ d_1^{\ 2} = 4\ \text{cos}^2 \left(\frac{\pi}{7}\right) $$

Agora, substituímos na relação da diagonal maior:

$$ d_2 = 4\ \text{cos}^2 \left( \frac{\pi}{7} \right) - 1 \\[1em] d_2 = d_1^{\ 2} - 1 $$

A diagonal maior é o quadrado da diagonal menor menos 1. Essa é uma relação lindíssima, simétrica e fácil de verificar numericamente.


6. Generalização para um lado de medida $k$

Como estamos partindo de um heptágono regular de lado unitário e passando para um heptágono regular de lado $k$, todas as dimensões lineares são multiplicadas pelo mesmo fator de escala $k$. Em particular, suas diagonais também são multiplicadas por $k$.

Assim, se $d_1$ e $d_2$ representam, respectivamente, a diagonal menor e a diagonal maior do heptágono unitário, então as diagonais correspondentes do heptágono de lado $k$, que denotaremos por $D_1$ e $D_2$, são:

$$ D_1=k\ d_1 $$

e

$$ D_2=k\ d_2 $$

Aplicando o Teorema de Ptolomeu diretamente ao quadrilátero correspondente $ABCE$, agora com $AB = BC = k$, obtemos:

$$ AC \cdot BE = AB \cdot CE + BC \cdot EA $$

Substituindo:

$$ D_1 D_2 = k\ D_1 + k\ D_2 $$

Colocando $k$ em evidência:

$$ D_1 D_2 = k(D_1 + D_2) \tag{10} $$

Essa é a forma geral da propriedade, podendo ser reescrita equivalentemente como:

$$ D_1 + D_2 = \frac{D_1 D_2}{k} \tag{11} $$

Ou ainda, dividindo a igualdade por $k\ D_1\ D_2$:

$$ \frac{1}{D_1} + \frac{1}{D_2} = \frac{1}{k} \tag{12} $$

Essa última expressão explica a relação que aparece naturalmente quando o lado do heptágono não é unitário.


7. Exemplo para um heptágono de lado $k = 3$

Considere agora um heptágono regular cujo lado mede $k=3$.

Como as dimensões são três vezes maiores que as do heptágono unitário, temos:

$$ D_1 = 3\ d_1 $$

e

$$ D_2 = 3\ d_2 $$

Utilizando os valores aproximados das diagonais do heptágono unitário:

$$ D_1 \approx 3 \times 1,801937736 \\[1em] D_1 \approx 5,405813208 $$

Para a diagonal maior:

$$ D_2 \approx 3 \times 2,246979604 \\[1em] D_2 \approx 6,740938812 $$

A soma das diagonais é, portanto:

$$ D_1 + D_2 \approx 5,405813208 + 6,740938812 \\[1em] D_1 + D_2 \approx 12,146752020 $$

Já o produto vale:

$$ D_1 D_2 \approx 5,405813208 \times 6,740938812 \\[1em] D_1 D_2 \approx 36,440256060 $$

Segundo a relação geral:

$$ D_1 D_2 = k(D_1 + D_2) $$

Como $$k = 3$$:

$$ 3(D_1 + D_2) \approx 3 \times 12,146752020 \\[1em] 3(D_1 + D_2) \approx 36,440256060 $$

Assim, a igualdade é novamente confirmada:

$$ D_1 D_2 = 3(D_1 + D_2) $$

8. A construtibilidade do heptágono regular

Ao contrário de alguns polígonos regulares, o heptágono regular não pode ser construído exatamente utilizando apenas régua e compasso.

O critério geral para a construção de polígonos regulares com régua e compasso foi estabelecido por Gauss e posteriormente completado por Wantzel. Segundo esse critério, um polígono regular de $n$ lados é construtível se, e somente se, $n$ pode ser escrito na forma

$$ n = 2^k \, p_1 \, p_2 \cdots p_m \tag{13} $$

onde $k \geq 0$ é um inteiro e os $p_i$ são primos de Fermat distintos, isto é, primos da forma

$$ F_j = 2^{2^j} + 1 \tag{14} $$

Os primeiros primos de Fermat são $F_0 = 3$, $F_1 = 5$, $F_2 = 17$, $F_3 = 257$ e $F_4 = 65537$. Como $7$ não é um primo de Fermat, o heptágono regular não satisfaz esse critério. Portanto, sua construção exata não é possível utilizando apenas régua não graduada e compasso.

Isso, entretanto, não impede que suas propriedades geométricas sejam estudadas exatamente. A relação demonstrada neste artigo é um exemplo disso: mesmo sem uma construção clássica do heptágono, podemos estabelecer rigorosamente relações entre seus lados e suas diagonais.


COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO: Título: Propriedades das diagonais do heptágono regular. Publicado por Kleber Kilhian em 04/10/2026. URL: . Leia os Termos de uso.


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